Gênero musical fonográfico estabelecido em meados da década de 1940, suas origens remontam a diversas manifestações folclóricas do Nordeste, estilizadas e mescladas às influências da música popular urbana do Rio de Janeiro.

Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Presente de maneira difusa em diversas manifestações musicais e coreográficas nordestinas, como o coco, o lundu e o maracatu, o termo baião é também sinônimo de “rojão”, pequeno trecho musical tocado à viola pelos repentistas nos intervalos do canto. A partir deste fragmento, transposto da viola para a sanfona, os compositores Luiz Gonzaga (1912-1989) e Humberto Teixeira (1915-1979) concebem o baião como um gênero fonográfico, cujo marco inicial é o lançamento de “Baião” (1946) pelo conjunto Quatro Ases e um Curinga. A gravação por um prestigiado conjunto, dividindo o disco com um samba, contribui para sua aceitação.

A estética do baião surge do cruzamento entre o folclore rural nordestino com elementos da cultura popular urbana, estilizando referências como a poesia de cordel, a batida da viola dos repentistas e o balanceio1. Além de trazer temáticas que reportam à vida do sertanejo, sua construção musical recorre aos modos mixolídio e dórico, presentes na música dos violeiros, cantadores, aboios e novenas nordestinos. Ritmicamente, utiliza a fórmula de compasso 2/4, caracterizando-se “pelo início da frase após pequena pausa no tempo forte”2.

Originalmente executado com viola, tamborim, botijão3 e rabeca, ao ser transportado para o contexto das emissoras de rádio e estúdio de discos do Rio de Janeiro, o gênero recebe a instrumentação de conjuntos regionais que executam sambas e choros, levando cavaquinho e violão sete cordas em sua formação. Apenas no final da década de 1940, quando o próprio Gonzaga – então conhecido como o “Rei do Baião” – passa a registrar suas composições em sua voz, que se consolida a fórmula que caracteriza a sonoridade do baião, com o trio de base formado por acordeão, zabumba e triângulo. Além de compacta, esta formação possibilita um equilíbrio entre as frequências grave, média e aguda. Somada à sua técnica de “jogo de fole” da sanfona (resfolego), a performance de Gonzaga agrega um discurso de “autenticidade” pela voz nasalada – a princípio rechaçada por desviar do padrão estético do rádio e das gravadoras –, pelo canto próximo à fala, temperada por expressões regionais, e pelo figurino aludindo às figuras do vaqueiro e do cangaceiro.

Banda Cabeça de Alho - Nascida em Arcoverde-Pe. São defensores de todos os ritmos pernambucanos e principal o forró pé de serra que preenche a maioria do seu repertório. Seguidores dos mestres Luiz Gonzaga, Dominguinhos e João Silva (arcoverdense) a Banda toca as suas composições autorais acompanhada do tradicional forró pé de serra mas sempre com muito swing, arranjos inovados e muita pegada nas levadas ou seja "Temperando o Forró" que é o seu slogan. Foto: Amannda Oliveira.

Com o baião, a música nordestina alcança a primeira exposição extensiva nos meios de comunicação de massa. Parte de seu sucesso deve-se a fatores extramusicais: em um momento em que se repudia a “invasão” de ritmos estrangeiros e se acusa o samba de passar por uma crise criativa, o baião satisfaz a necessidade de renovar o repertório nacional e produzir uma música brasileira e dançante. Na década de 1950, os discos do gênero passam a contar com o mesmo tratamento dispensado ao samba, incorporando arranjos orquestrais, em gravações de artistas como Ivon Curi (1928-1995), Carmélia Alves (1923-2012) e Claudette Soares (1937). Além destes, dedicam-se ao gênero os compositores Zé Dantas (1921-1962), Luiz Vieira (1928-2020), Lauro Maia (1913-1950), Hervé Cordovil (1914-1979) e Sivuca (1930-2006). O gênero se projeta também fora do país, graças ao sucesso da trilha do filme O Cangaceiro (1953), premiada em Cannes, e também em diversas produções internacionais.

Um dos fatores que contribui para que o baião se torne um gênero popular é o fato de apresentar um conjunto de padrões rítmicos pouco complexos. Identificam-se pelo menos quatro padrões presentes nas gravações, revelando a multiplicidade e a plasticidade do gênero. Essa característica possibilita que se adapte às novas técnicas de gravação e instrumentação promovidas na música popular do final dos anos 1950, como a inclusão da bateria.

Apesar de entrar em declínio com o fim dos programas de auditório das emissoras de rádio e o sucesso da bossa nova, o baião inspira diversos trabalhos instrumentais no final da década de 1960, como o álbum Quarteto Novo (1967) e outros de Hermeto Pascoal (1936) e Egberto Gismonti (1947). Canções como “Adeus Maria Fulô” (1953), de Humberto Teixeira e Sivuca, recebe diversas releituras, entre as quais a do grupo Os Mutantes, de 1968, e “Asa Branca” (1947), de Gonzaga e Teixeira, é uma das canções mais regravadas no Brasil e no mundo. A influência do baião é significativa em todo o cancioneiro da MPB a partir dos anos 1970, estando no repertório de artistas como Caetano Veloso (1942), Gilberto Gil (1942), Dominguinhos (1942-2013), Geraldo Azevedo (1945) e Elba Ramalho (1951).

Ao longo do tempo, o baião se torna simultaneamente referência de música nordestina e brasileira. Se sua origem foi de certa forma planejada, sua plasticidade, por outro lado, faz com que assuma características não imaginadas por seus autores e perdure na produção da música popular até os dias atuais.




Fonte: Enciclopédia/Itaú Cultural